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  • Foto do escritorAna Luiza de Figueiredo Souza

Cinco reflexões trazidas por "Como Seria Se…", segundo uma pesquisadora de (não) maternidade

Pessoas próximas indicaram esse filme por trazer como tema as duas vivências que pesquiso: a maternidade e não maternidade. Ainda que não seja dos mais elaborados em termos de roteiro e construção de personagens, o longa traz um argumento central que, na minha visão, o justifica. Explico por quê.


Quando pensamos na ficção audiovisual, as mães costumam ser retratadas como movidas exclusivamente por amor à família, com o enredo imbricado ao que os familiares fazem ou deixam de fazer. Já aquelas que não têm filhos em geral aparecem de maneira caricata, quando não encarnam as vilãs ou as eternamente amarguradas por não terem tido filhos.


Por mais que tenha havido mudanças significativas nessas representações em anos recentes, até por demanda do público, elas convivem com toda uma tradição de personagens femininas entre a imagem da mulher “maternal” e a da mulher “sem aptidão para ser mãe”.


Como Seria Se...consegue fazer que o público veja mais sobre o que a protagonista sente ou deseja do que sobre sua condição de mãe ou sem-filhos. Principalmente na linha do tempo em que engravida. O filme também não coloca essas vivências como necessariamente boas ou ruins, oportunas ou problemáticas. São os contextos e as atitudes da protagonista que dão significado ao seu percurso em cada linha do tempo.


A abordagem mais pessoal em vez de estrutural enfatiza a agência que a personagem tem sobre a gestão da própria vida. Ela pode encontrar maneiras de atingir seus objetivos, no cenário em que estiver. Mensagem que se opõe ao determinismo sobre as possibilidades de uma mulher com ou sem filhos.


Por isso, divido aqui minhas principais reflexões sobre o longa.


1) A maternidade tem impacto na rede de apoio.


A mãe de Natalie, Tina, não encara bem a notícia de que a filha está grávida. Deixa claro que aquilo atrapalha os planos que ela e o marido tinham feito para quando saísse de casa. Ao longo dos anos seguintes, vemos a protagonista morando com os pais, que precisam voltar a conviver diariamente com uma criança que chora à noite, faz bagunça, precisa ser educada etc.


Os pais de Natalie (junto com Gabe, o pai da menina) são essenciais para que ela consiga se manter e criar sua filha. Eles logo se adaptam ao novo cenário e param de fazer reclamações ou exigências. Mas isso não significa que deixem de dividir com a protagonista o impacto da maternagem.


2) Mesmo como direito legal, interromper uma gestação nem sempre é simples.


A história se desenrola nos Estados Unidos pré-revogação do direito ao aborto. Ou seja, na realidade do filme, interromper a gestação de forma voluntária por meios legais é uma alternativa disponível para as mulheres estadunidenses. Mesmo assim, apesar de receosa e assustada, Natalie decide ter o bebê.


Isso se repete na ficção ou fora dela. A maternidade é construída de forma muito enfática no nosso imaginário social. Configura uma das maiores expectativas que se tem com mulheres: se tornarem mães em algum momento, serem felizes com os filhos. A isso se junta a importância dada às crianças, sobretudo bebês, que se tornam símbolos de renovação, algo que deve ser preservado e protegido. É difícil abdicar de todos esses aspectos.


3) Luto pela mulher que ainda não era mãe.


“Estou fazendo só isso”, desabafa Natalie para a mãe, explicando que sente que a vida das pessoas sem filhos progride em um ritmo muito diferente da dela, com a filha bebê.


Tina explica que “por mais que se queira ser mãe, existe um luto pela mulher que você deixa de ser, pois agora, pelo resto da vida, você será mãe”.


Esse luto é referenciado em várias das narrativas que investigo em pesquisa. Bem como a irreversibilidade do papel de mãe aparece nas narrativas daquelas que receiam ou rejeitam a maternidade.


4) Exagero nas oportunidades da vida sem filhos.


Onde o filme se desconecta (muito) da realidade é o quão fácil se torna para Natalie atingir seus objetivos na linha do tempo sem filhos. As portas se abrem na primeira tentativa, planos ruins alcançam ótimos resultados.


E ter conseguido o emprego dos sonhos porque um crush de festa (Jake), sem segundas intenções, passou o currículo dela na frente do CV dos outros? Podiam ter escrito essa parte melhor, roteiristas.


Aliás, todo o arco dramático desde a ida para o evento onde estaria Lucy, a artista que Natalie admira, até a consequência de ter conhecido Jake, funcionário de Lucy que estava no evento, contradiz a personalidade que o filme estabelece para a protagonista no campo profissional. Para uma pessoa que diz ser movida a planos cuidadosamente construídos, não fazer ideia de como submeter seu portfólio para avaliação e achar que simplesmente ir a um evento sem nenhum material ou indicação serve de networking é bem estranho.


5) É possível ser uma mulher realizada com ou sem filhos.


Eis o argumento central do filme. Nas duas realidades, Natalie consegue atingir o objetivo que perseguia desde a faculdade. Por caminhos diferentes, mas na mesma quantidade de anos e com um par romântico a seu lado.


Na linha do tempo em que tem uma filha, é a própria maternidade que dá a ela insumos para criar as tirinhas que a tornam quadrinista. Na linha do tempo sem filhos, tem a possibilidade de passar meses focada em lapidar seu estilo, o que culmina em um bem sucedido filme.


Cabe apontar que, em ambas as linhas, Cara, a amiga de Natalie, permanece sem filhos e isso não faz que consiga atingir satisfação profissional, embora esteja satisfeita na vida pessoal. Já Gabe se mostra bem feliz por ser pai nas duas linhas do tempo, ainda que suas trajetórias profissional e pessoal tenham sofrido solavancos.


Apesar do roteiro deficitário, o filme traz um ponto válido. Ter ou não ter filhos, em si, não determina o destino nem o nível de felicidade de ninguém.


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Confira aqui o post sobre as reflexões em torno do filme Como Seria Se... em formato compacto.


As temáticas mobilizadas nessa breve resenha são melhor exploradas no livro Ser mãe é f*d@!”: mulheres, (não) maternidade e mídias sociais. Mais conteúdo sobre o livro nesta aba.

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