• Ana Luiza de Figueiredo Souza

O problema com as "cantadas" de rua

Atualizado: 14 de jun. de 2021

Na semana do Dia Internacional das Mulheres, fiz uma série de stories no Instagram falando sobre coisas que já deixei de fazer por ser mulher. Entre essas coisas, estava o fato de que eu evito passar perto de homens quando estou sozinha. Contei algumas situações desagradáveis (leia-se tensas) pelas quais já tinha passado com relação a isso e recebi respostas compartilhando histórias parecidas.


Só que um comentário, feito por mensagem direta, ficou guardado comigo. Era o de uma moça contando que o namorado questionava se as cantadas de rua eram tão ruins assim. Perto de outros desrespeitos e violências que as mulheres enfrentam, não parecia ser o pior. Para ele, podia "ser chato” passar por algum assédio na rua, mas “é só ir embora” que “aquilo fica pra trás”.


Troquei alguns áudios com a moça que me contou isso, mas acho que essa conversa pode ser dividida com mais gente. Afinal, existem duas questões ligadas ao assunto que valem a pena discutir.

Definição de cantada VS definição de assédio


Em primeiro lugar, cantada é uma investida para criar alguma ponte entre alguém e uma pessoa que esse alguém ache interessante. Acontece em um contexto de flerte, propício para esse tipo de comportamento. Tem o objetivo de interagir com aquela pessoa. No caso, uma mulher. Nenhum homem na boate vai simplesmente caminhar até você, mandar um “oi, linda” e bater em retirada. Se ele chegou em você, é porque quer alguma coisa com você.


Mas quando um homem vê uma mulher na rua e diz (muitas vezes, grita) algo relacionado à aparência ou ao jeito dela, ele não espera que essa mulher vá até ele bater um papo. Ficaria muito confuso se isso acontecesse. O que se chama de “cantada de rua” nada mais é do que a expressão do poder masculino de opinar ou agir livre e publicamente sobre quem pertence ao gênero feminino. É a vocalização do que ele acha sobre aquela mulher naquele momento, já que os homens são ensinados — e a maioria absorve essa crença — que sua opinião acerca das mulheres é tão importante que eles podem falar sobre aspectos delas em qualquer ocasião, como quiserem.


Um homem diz “ô lá em casa” porque acredita que tem esse direito. Já as mulheres aprendem, desde cedo, a enxergarem os homens como seres complexos dotados de personalidade e desejos próprios. Aprendem, também, que a opinião delas não tem grande importância, ainda mais quando se trata do que pensam dos homens. Isso explica porque é raro ver cantadas de rua voltadas para homens feitas por mulheres. Não é assim que somos socializadas.


O que quer que um homem solte para uma mulher quando se cruzam pela rua — “gostosa”, “feia pra caralh*”, “será que você me aguenta, novinha?”, “se passar por aqui de novo eu não me seguro” — ele espera que essa mulher escute o que disse, mantenha a cabeça abaixada e siga seu caminho sem reclamações.


A violência do assédio nas ruas


E aqui chegamos na segunda questão dessa prática. “Delícia”, “que raba”, “parece modelo”, “na minha cama faz estrago”. Essas ditas cantadas de rua — que já aprendemos que nem cantadas são — representam apenas a ponta do iceberg. Ao contrário do que o namorado da moça que mencionei lá em cima pensa, assédio nas ruas não se resume a ouvir que você é “tão linda”. Também envolve ouvir que:


Você é “baranga”, “esqueceu a bunda em casa”, “baleia encalhada”, “seca”, “não tinha roupa decente no armário não?”, “parece um gnomo”. Sem contar os comentários racistas, capacitistas, xenófobos ou classistas que se escutam por aí. E se engana quem pensa que esses insultos se restringem a homens heterossexuais. Quando se trata de julgar publicamente as mulheres, em alto e bom som, a orientação sexual do agressor (sim, agressor) não faz tanta diferença.


Assédio nas ruas é


Ouvir, passando pela esquina onde você mora, “tá indo encontrar o namorado, princesa? o que ele faz contigo eu faço melhor, na volta eu te mostro”.


Ter seu corpo agarrado, puxado, apalpado e apertado por homens de quem você sequer gostaria de ficar perto.


Um pênis roçar, de propósito, sua perna no transporte público, ou ejacular no seu colo no dia daquela apresentação para a qual você vinha se preparando há semanas.


Mapear possíveis rotas de fuga numa ida ao mercadinho, caso alguma ameaça apareça durante o trajeto.


Ter que planejar quais roupas vestir e por quais lugares passar antes das saídas. Às vezes até antes de marcar essas saídas.


A insegurança de estar sendo filmada por aquele sujeito com o celular apontado na sua direção.


Deixar de frequentar certos espaços da cidade por receio de ser violada, machucada, ofendida.


Assédio nas ruas é o medo real de morrer — ser morta — ou de passar por um estupro toda vez que pisa fora de casa.


“Vem aqui, lindeza” e seus derivados são mera amostra do poder de abuso do corpo feminino que a cultura patriarcal propicia aos homens.


É esse o motivo por que tantas pessoas se juntam em torno da mesma exigência: tornar o espaço público menos violento e mais inclusivo para as mulheres.



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Gostou desse artigo? Acompanhe o Nota de rodapé para mais discussões.


Confira aqui o post sobre cantadas de rua em formato compacto.


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