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  • Foto do escritorAna Luiza de Figueiredo Souza

Maternalismo e ideologia maternalista

O debate sobre maternidade compulsória implica em reconhecer a existência de uma ideologia que considera que a maternidade deve ocupar o centro da vida das mulheres, visto que a aptidão para o afeto e o cuidado seriam atributos naturais delas. Ideologia esta que se convenciona chamar de maternalista.


Ainda de acordo com a ideologia maternalista, mulheres seriam insubstituíveis nos cuidados com as crianças e os filhos, sejam próprios ou alheios. Essa crença deriva da naturalização do papel de nutriz(es) desempenhado por boa parte da população feminina em sociedades estruturadas a partir do gênero. Cria-se um círculo vicioso:


  • Crianças, em sua maioria, crescem sob os cuidados de mulheres e se acostumam a vê-las nesse papel.

  • Meninas são incentivadas e ensinadas a conduzir atividades necessárias para o cuidado dos outros.

  • Meninos internalizam a noção de que uma mulher (ou menina) vai se ocupar das tarefas de cuidado por eles.

  • Por estarem atentas às demandas alheias desde cedo, meninas crescem e se tornam mulheres que tendem a ser psicologicamente mais conectadas às outras pessoas, enquanto meninos viram homens que costumam ser menos empáticos e emocionalmente imaturos.

  • Tal conjuntura leva à percepção — ou melhor, cria a impressão — de que mulheres são vistas como especialmente moldadas para o afeto e para assumir as tarefas de cuidado.

  • Motivo que não raro as leva a perseguir ocupações ou carreiras relacionadas ao cuidado, sobretudo de crianças.

  • Crianças estas que também vão crescer acostumadas a terem figuras femininas no papel de suas principais cuidadoras.


Esse círculo se constrói e é reforçado não apenas no interior da própria estrutura de gênero, mas também na esfera doméstica, especialmente dentro das famílias nucleares em torno das quais sociedades que se estruturam a partir do gênero costumam operar.


Nesses arranjos sociais, o casamento é encarado como primeiro passo para  atingir o modelo familiar tomado por ideal. Enquanto instituição, o casamento tem como principal objetivo a concepção de filhos biológicos, herdeiros dos bens dos genitores. Assim, a presença de filhos (preferencialmente biológicos) e o desejo por eles concede validade àquela família em formação. Família esta que é culturalmente encarada como a unidade a partir da qual seria possível construir uma ordem moral e social adequada.


O maternalismo — que pode ser entendido como a sistematização da ideologia maternalista —, ao valorizar a família enquanto base da ordenação social, estabelece a fusão entre a categoria mulher e o construto maternidade. Nessa lógica, o lugar das mulheres enquanto mães é estabelecido como central na construção da ordem familiar que, por sua vez, se estende para a ordem social.


Surgido nas últimas décadas do século XIX, o maternalismo permeou diversas reivindicações das mulheres por mais direitos e apoio do poder público ao redor do globo. De movimentos sufragistas (inclusive o brasileiro) ao estabelecimento de leis de amparo à maternagem na Europa e nos Estados Unidos, o discurso maternalista perpetuava dinâmicas histórias de opressão às mulheres para que elas conseguissem algum avanço civil. Processo que pode ser encarado como a tentativa de trazer modificações que impactariam positivamente a vida das mulheres sem atacar a ordem vigente já estabelecida.


Apesar disso, na literatura anglófona, é possível encontrar trabalhos que entendem o maternalismo como uma forma particular de feminismo, na qual o papel das mulheres enquanto cuidadoras é muito valorizado e, por isso, mobiliza reinvindicações para que receba apoio. Críticas a esses trabalhos — mais alinhadas à perspectiva das publicações brasileiras — pontuam que a sobrevalorização da função de cuidadoras das mulheres, sobretudo no papel de mães, é justamente a causa dos problemas gerados pelo maternalismo e pela reprodução da ideologia maternalista que carrega. A própria associação entre mulheres, cuidado e maternidade deixa implícito que as reinvindicações sociais femininas têm valor e podem ser levadas a sério apenas quando se relacionam ao papel de mãe e ao melhor desempenho do trabalho de cuidado com os outros.


Nesse sentido, boa parte das oportunidades duramente conquistadas pelas mulheres vieram junto ao reforço de estruturas que ainda reproduzem a hierarquia entre gêneros, depositam sobre as mulheres a maior (ou integral) responsabilidade pelos cuidados dos filhos, impõem a ideologia das camadas dominantes às mulheres periféricas (fenômeno ligado à maternidade negada), acima de tudo, mantêm a maternidade compulsória.


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Para citar:


FIGUEIREDO SOUZA, Ana Luiza de. Maternalismo e ideologia maternalista. Nota de rodapé, 26 jun. 2024. Disponível em: https://www.analuizadefigueiredosouza.com.br/post/maternalismo-e-ideologia-maternalista


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b) e na tese de doutorado Mães de ninguém, em breve disponível para download.


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