Monogamia permite o entendimento (individual e coletivo) de que a família é propriedade do homem
- Ana Luiza de Figueiredo Souza

- 13 de fev.
- 2 min de leitura
Quando pesquisadores e ativistas dizem que monogamia só existe para mulheres, estamos falando de casos como esse.
Um homem se acha no direito de tirar a vida dos próprios filhos sob o pretexto de que teria descoberto uma suposta traição da esposa.
E tem muita gente apoiando esse desfecho. Por quê?
Conforme explico na minha tese de doutorado, a monogamia é uma invenção que restringe mulheres para proteger a propriedade privada dos homens, sobretudo por meio dos filhos.
Ao longo da História, as punições se aplicavam apenas a mulheres acusadas de adultério. Homens comprovadamente infiéis não eram punidos pela lei nem
pela sociedade.
Até hoje se propaga a ideia de que, dentro de um relacionamento, o homem está propenso a trair, enquanto a mulher precisa perdoar essas traições, sendo responsável pela reconciliação do casal.
Mas se a traição — ou suspeita de traição — é do lado feminino, o homem que se vê traído tem apoio social para ser implacável.
Nessas retaliações desproporcionais e violentas, fica claro o entendimento (individual e coletivo) de que a família é posse daquele homem. Esposa, filhos, pets, casa. São todos “seus pertences”, ele é o “dono”, e tem o poder de decidir o que acontece com “sua propriedade”, seja viva ou inanimada.
Em vez de repudiarem a violência contra crianças assassinadas a sangue frio, muita gente desvia a conversa para o comportamento da mulher. “Se ela não tivesse traído, os filhos estariam vivos”.
Ou seja, o culpado não é o homem que mata, mas a mulher acusada de furar o contrato monogâmico. Qualquer violência decorrente disso é justificada e até aplaudida.
O papel de “pai de família” e o “amor de marido” são permissivos com violências contra aqueles de quem esse homem é colocado como protetor. Qualquer incômodo vira motivo para se converter em carrasco. O oposto do que acontece com o papel de “esposa dedicada” e o “amor de mãe”.
Assim, o patriarcado permite que mulheres e grupos vulneráveis continuem sendo vitimados enquanto seus principais agressores — os homens — se passam por vítimas.
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Para citar:
FIGUEIREDO SOUZA, Ana Luiza de. Monogamia permite o entendimento (individual e coletivo) de que a família é propriedade do homem. Nota de rodapé, 13 fev. 2026. Disponível em: https://www.analuizadefigueiredosouza.com.br/post/monogamia-torna-a-familia-posse-do-homem



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