Essencialismo no nicho da maternidade
- Ana Luiza de Figueiredo Souza

- 17 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 18 de mar.
Costumo dizer que não tem como criticarmos um aspecto de uma estrutura sem olhar para o que a sustenta. Não adianta querer derrubar só um alicerce, precisamos tombar todos, do contrário ela só fica meio capenga, mas ainda continua lá.
Nos últimos dias tem circulado muito conteúdo feito por mulheres sobre o que elas chamam de “mulher de verdade”. E qual o principal atributo que usam para descrever o que seria uma mulher de verdade? O “dom mais precioso de todos”: “a capacidade de gerar vida dentro de si”.
O que isso diz sobre as mulheres que não podem, que não querem ou que ainda não geraram essa vida dentro delas? O diz sobre as que geraram vida fora do próprio corpo?
Ou daquelas que chegaram a gerar uma vida dentro de si, mas ela se esvaiu ainda em seu interior ou pouco tempo depois do parto? Elas não seriam “mulheres de verdade”?
Seriam elas menos mulheres?
Mulheres de mentira, piadas de mau gosto, farsas, fantasias, delírios, anomalias, deformidades, problemas a serem corrigidos e eliminados?
Estão entendendo a lógica aqui?
Dentro do nicho da maternidade — não raro em interseção com o nicho da infância — circulam muitos discursos essencialistas. O solo desses discursos é o especismo e a exclusão de grupos sociais que nutre(m) tanto o patriarcado (branco) quanto o capitalismo.
A mesma mulher/mãe cisgênero que critica mulheres transgênero também critica mães de pet, modos de se tornar mãe que ocorram fora do próprio útero ou existências não pautadas pelo materno (como determinados modos de viver a não maternidade). E faz isso usando a mesma base discursiva: “elas não são mulheres/mães de verdade”.
Verdade esta que é construída de modo a estar o mais próxima possível do modelo de maternidade biológica colocado como basilar na identidade feminina. Quem não o cumpre ou o vivencia de maneiras entendidas como “alternativas”, perde posições na hierarquia valorativa do que seriam as mulheres e mães “verdadeiras”. Aquelas que poderiam falar pelas demais, o modelo que as outras deveriam seguir.
Junto com a defesa da vivência “real” de ser mulher e/ou mãe, aparece a mesma ameaça: “elas estão tomando os nossos lugares e espaços”.
Como se as mães de pet matriculassem cachorro em colégio infantil.
Como se as mulheres transgênero fossem completamente alheias a tudo que diz respeito ao feminino.
Como se aquelas que se tornam mães por processos externos ao próprio útero fizessem lobby contra gestações convencionais.
Ou como se as mulheres sem filhos pregassem a perda do direito de as mulheres vivenciarem a maternidade.
Nada disso acontece, são moinhos de vento, tal qual os casos de “homens de vestido que usam a ‘identidade de mulher trans’ para atacarem mulheres nos banheiros públicos”.
Configuram anedotas estapafúrdias que causam confusão, raiva, desprezo. Mais ainda: revelam o quanto aquelas mais próximas dos modelos hegemônicos querem preservar essa hegemonia, mesmo que esse lugar também as oprima.
Posicionamento que acaba reforçando posições que constantemente esmagam todas nós.
Vamos lembrar que, durante muito tempo, mulheres indígenas, negras, com deficiência e das camadas mais empobrecidas ficavam de fora daquilo que poderia ser concebido como "mulher".
Vamos lembrar que maternidade compulsória ocorre em paralelo à maternidade negada: quem pode ser mãe? Quais mulheres são potencialmente consideradas 'boas mães', 'mães que valem a pena proteger'?
Vamos lembrar que, em boa parte das vezes, quando se tenta criar definições essencialistas do que é um determinado grupo ou vivência, isso termina em movimentos vi0lentos, restritivos, autoritários.
Vamos lembrar que a separação entre 'humanidade' e 'natureza', seres 'racionais' e 'irracionais', 'humanos' e 'outros' foi imposta por processos que buscavam o acúmulo de riquezas a partir da exploração 'daquilo-que-não-é-humano', espalhados pela colonização.
E vamos lembrar do tratamento que nos faz nos reconhecermos como mulheres, dentro das nossas muitas diferenças: o toque não consentido, a sobrecarga de trabalho doméstico/emocional, as ameaças à nossa autonomia, o medo, a humilhação constante, a objetificação.
Fontes:
FIGUEIREDO SOUZA, Ana Luiza de. Mães de ninguém: imaginários, identidade(s) feminina(s) e marcadores sociais em comunidades on-line de/para mulheres sem filhos. Tese (Doutorado em Comunicação), Universidade Federal Fluminense, 2024. Leia aqui.
FIGUEIREDO SOUZA, Ana Luiza de. "Ser mãe é f*d@!": mulheres, (não) maternidade e mídias sociais. Porto Alegre: Zouk, 2022. Leia aqui. -----
Para citar:
FIGUEIREDO SOUZA, Ana Luiza de. Essencialismo no nicho da maternidade. Nota de rodapé, 17 mar. 2026. Disponível em: https://www.analuizadefigueiredosouza.com.br/post/essencialismo-no-nicho-da-maternidade



Comentários