• Ana Luiza de Figueiredo Souza

Onde entram as mulheres sem filhos no debate materno?

Atualizado: 4 de fev.

Essa é uma resposta que desenvolvo desde a pesquisa de mestrado. Conforme pontua Orna Donath — autodeclarada childfree e pesquisadora de temáticas maternas, especialmente no que se relaciona ao arrependimento materno —, a não maternidade é o caminho cuja existência é escondida, sequer apresentada às mulheres. Eu mesma cresci sem entender que havia a possibilidade de virar adulta sem me tornar mãe. No senso comum, inclusive, a maternidade permanece requisito para o amadurecimento de uma mulher. Tal percepção ficou clara nas narrativas de várias mães que investiguei ainda no mestrado, ao dizerem que só ganharam o respeito de seus círculos pessoais, passaram a ser levadas a sério ou só foram encaradas como adultas depois de terem filhos. Na pesquisa de doutorado, acompanho a frustração de muitas mulheres sem filhos que relatam que são vistas como irresponsáveis, menos adultas ou imaturas simplesmente por não terem seguido esse roteiro social.


Como tantas mulheres, também achava que a maternidade era destino de todas nós. Não tinha referências próximas que me mostrassem o contrário. A não maternidade — cujo nome eu nem cogitava naquela época — parecia uma espécie de castigo ou mesmo fracasso: enquanto mulher, enquanto pessoa que não se realiza plenamente. Pensamento ainda bastante comum, conforme denunciam tantas mulheres sem filhos cujos familiares ou amigos que têm filhos buscam convencê-las de que pre-ci-sam passar por essa experiência para dar (maior) significado às próprias vidas.


O imaginário coletivo associa a não maternidade voluntária ao egoísmo e à falta de responsabilidade. O que é interessante ao considerarmos o resultado de estudos que mostram que a decisão de ter filhos decorre mais amplamente de influências afetivas e normativas do que da consideração racional das vantagens, inconveniências e compromissos assumidos ao se colocar (ou adotar) um filho no mundo. Em uma dessas pesquisas, publicada na revista Philosofie Magazine, 73% das motivações para se ter filhos estão associadas ao prazer, além de restritas a desejos particulares. “Torna a vida cotidiana mais feliz e alegre”. “Dá afeto, amor e faz com que sejamos menos sós na velhice”. “Torna mais intensa e mais sólida a relação do casal”. “É uma nova experiência”. “Permite deixar parte de si na Terra depois da morte”. Essas foram algumas das respostas recebidas. Entre pessoas que não desejam filhos, porém, argumentos relacionados ao âmbito coletivo aparecem com mais frequência para justificar sua decisão. Crise ambiental e problemas sociais costumam figurar entre as respostas que recebo nas enquetes e postagens que realizo (@analuiza.dfigsouza).


Em entrevista, ao ser indagado se "pessoas sem filhos não evoluem menos", Jerry Steinberg, criador da comunidade online internacional de pessoas sem filhos No Kidding, responde: "Não, ao contrário. A maioria das pessoas sem filhos que conheço é muito ativa em sua comunidade, faz trabalho voluntário. O foco de quem tem filhos fica mais estreito: é o lar. Se determinado problema não afeta diretamente seus filhos, não se envolve".


Claro que não estou afirmando que não existem motivações exclusivamente individualistas entre pessoas que decidem não ter filhos. Nem que não há pessoas com filhos que prezem pela coletividade. Mas atento para os diferentes posicionamentos desses grupos, que vão além dos estereótipos que o senso comum imprime a pais (altruístas, responsáveis, generosos) e pessoas sem filhos (egoístas, inconsequentes, autocentradas).


Mulheres sem filhos são caras ao debate materno, em primeiro lugar, por denunciarem que diferentes sociedades sequer conseguem conceber a possibilidade de uma mulher não ter filhos. A falta de um termo para nomeá-las reflete essa limitação. Sem-filhos, nulípara, sem-frutos, não mãe, árvore seca, figueira do inferno. Todas essas denominações — similares em outros idiomas — implicam sentido de falta, de certa carência, incompletude. Até de maldição. Mesmo termos como childfree ou voluntarily childless, que poderiam se afastar de conotações negativas, acabam sendo pouco difundidos, alvo de acusações. Mãe é a mulher-referência, aquela que é propriamente nomeada, sem que desse nome se extraia sentido pejorativo.


O segundo motivo para mulheres sem filhos serem relevantes no debate materno é porque desnaturalizam a maternidade. Atentam para seus aspectos pragmáticos, para questões que não são resolvidas simplesmente com amor materno ou com o afeto dos filhos — o que cria novas percepções sobre a própria maternidade. Desconstroem a ideia de que ser mulher equivale a, em algum momento, virar mãe. Mesmo as não mães involuntárias — aquelas que queriam ter filhos, mas não conseguiram por algum (ou mais de um) motivo — mostram que é possível existir enquanto mulheres sem filhos, ressignificando essa frustração, sendo realizadas em outros aspectos. Também revelam que querer ser mãe não é suficiente para se tornar uma. Tanto por falta de condições quanto por não desejarem vivenciar a maternidade em circunstâncias que não consideram adequadas. Há, evidentemente, aquelas que não conseguem encontrar a felicidade fora do papel de mãe, o que evidencia o quanto esse papel é significativo e valorizado, a ponto de número considerável de não mães involuntárias relacionarem o sentido da vida e seu valor pessoal a ele.


O terceiro motivo consiste no fato de que a maternidade se mantém enquanto importante referência identitária feminina, sendo forte elemento na socialização das mulheres. Existe a expectativa social da maternidade. Mais ainda: existe a cobrança para que desenvolvam traços considerados maternais, para que saibam maternar, para que se interessem pelo universo materno e infantojuvenil, para que estejam à disposição de mães, pais e crianças no papel de cuidadoras e/ou daquelas que preenchem as lacunas (financeiras, estruturais, afetivas, organizacionais etc.) daquilo que os pais — sobretudo as mães — não conseguem dar conta.


De fato, algo que fica cada vez mais evidente na pesquisa é o quanto mulheres sem filhos são fundamentais tanto para o debate público sobre temáticas maternas (por serem também afetadas por elas e as significarem de modos distintos) quanto para as próprias redes de apoio materno. Aqui mesmo no NIEM, a integrante que mais auxilia mães pós-graduandas ou candidatas a processos seletivos com informações e materiais é uma mulher sem filhos. Nas palestras que ministro, surgem relatos da amiga sem filhos essencial durante o puerpério, da irmã sem filhos que ajudou a criar os sobrinhos ou da colega de trabalho sem filhos que bancou algum tratamento ou curso para a/o criança/adolescente de alguém do escritório, mesmo que mulheres sem filhos não costumem receber reconhecimento por isso.


A desvalorização das não mães é histórica. Mesmo em sociedades pré-coloniais, antes do contato com o patriarcado branco imposto pelos invasores, ser mãe, muitas vezes, configurava posição de poder e prestígio. Do mesmo modo, mulheres eram designadas a ocuparem funções maternais para com as crianças e jovens da comunidade. Em diferentes culturas e grupos sociais, ser mulher sem filhos ou afastada de algum tipo de maternagem corresponde a ser inútil, menos mulher. Podemos argumentar que apenas na contemporaneidade passar toda a vida adulta sem filhos ganha alguma conotação positiva — o que não raramente implica subjetividades conformadas às demandas produtivistas do capitalismo neoliberal. “Não quero filhos porque escolho ser rica”, “não quero me preocupar com ninguém além de mim mesma”. Esses discursos circulam por algumas comunidades de mulheres sem filhos, muitas vezes de forma acrítica.


Rebecca Solnit, outra pesquisadora que também investiga temáticas maternas (ainda que não sejam sua especialidade), ao discutir sobre a incompreensão das pessoas — entre elas, apresentadores que a entrevistaram — diante do fato de não ter filhos, afirma: “Uma das razões pelas quais as pessoas se prendem à maternidade como elemento essencial da identidade feminina é a crença de que são os filhos que permitem consumar a capacidade de amar. Mas há tantas coisas a amar além da própria prole, tantas coisas que precisam de amor, tantas outras tarefas no mundo que cabem ao amor....”. E complementa: “Enquanto muita gente questiona os motivos dos que não têm filhos, tidos como egoístas (...), se esquecem de que, para os que amam intensamente seus filhos, pode sobrar menos amor pelo resto do mundo”.


Por fim, gostaria de encerrar com um fragmento da escritora Christina Lupton — mãe — sobre o que teve que abandonar por conta das exigências da maternagem: “Todas as maneiras de cuidar do mundo que não são tão facilmente validadas quanto cuidar dos filhos, mas que são, da mesma forma, fundamentalmente necessárias para que os filhos cresçam bem”. Entendemos, assim, que a sociedade tal como a conhecemos precisa desse movimento: pessoas sem filhos que realizam uma série de atividades das quais pessoas com filhos não se ocupam ou não desempenham com a mesma intensidade; muitas desses sem-filhos, em algum momento, se convertem em pais ou mães, que podem se voltar para os próprios núcleos familiares por contarem com uma rede de pessoas sem filhos e de pais cujos filhos são mais independentes para manter as engrenagens dessa estrutura funcionando até suas crianças crescerem; crianças estas que são necessárias para que haja renovação social, para que esse ciclo da vida organizada continue.


Somos, portanto, partes do mesmo todo.


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Confira aqui o artigo na coluna Maternidade na lupa, no site do NIEM.


O conteúdo do artigo é dividido em uma série de posts: parte 1, parte 2.


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