• Ana Luiza de Figueiredo Souza

Termos e conceitos desenvolvidos durante a pesquisa

Atualizado: 26 de dez. de 2021

Ao longo da pesquisa, vencedora do Prêmio Compós, foi preciso desenvolver alguns termos e conceitos — amadurecidos em trabalhos posteriores — para dar conta das problemáticas investigadas. Conheça mais sobre eles a seguir.



Conceito mais amplo de maternidade


Ao me referir à maternidade, me refiro também às práticas, disputas, valores e construções culturais, sociais e políticas a seu redor. Tal distinção se faz necessária ao considerarmos que o termo maternidade configura uma construção polissêmica discursiva sempre em negociação e disputa.


Nesse sentido, é possível entender que a maternidade engloba a maternagem, já que as práticas de cuidado com quem se toma por filho/a se relacionam com os ideais e símbolos da maternidade — seja para segui-los, seja para complementá-los ou fazer oposição a eles.


Ainda assim, defendo que precisamos encarar a maternidade e a maternagem para além de si mesmas, como conceitos que extrapolam as mães (ou os responsáveis pelas crianças) e seus filhos. Dizem respeito a todas as mulheres, na medida em que refletem e influenciam o tratamento que recebem. Em última instância, maternidade e maternagem se relacionam à sociedade como um todo. Crianças e não mães em idade avançada precisarão ocupar pautas, serviços e espaços públicos. Do mesmo modo, será necessário pensar as imagens, demandas e atribuições associadas tanto àquelas que tiveram filhos quanto às que não o fizeram.



Vivência materna


Termo criado para não resumir os referenciais e experiências de maternidade à maternagem. Abrange a relação de qualquer mulher com a maternidade, tendo filhos ou não. Assim, a vivência materna constitui o conjunto de valores e ideologias relacionados à maternidade que cada mulher — por meio do convívio familiar, instituições de ensino, cotidiano social, produções midiáticas — adquire ao longo da vida. Esse conjunto ajuda a estabelecer o lugar reservado à maternidade dentro de seu planejamento pessoal e, também, a forma como a enxerga em termos coletivos.


Apesar de não terem vivência materna — e cabe refletir se o termo vivência paterna seria adequado, considerando-se a diferença de relevância que a paternidade possui na socialização masculina em comparação à maternidade na feminina —, homens podem relatar a vivência materna de mulheres (mães, esposas, irmãs, namoradas) com quem convivem, inclusive por meio de narrativas pessoais.



Narrativas pessoais sobre a maternidade


São discursos e relatos construídos a partir da junção entre a vivência materna narrada pelo/a autor/a e os recursos disponibilizados pelas plataformas em que tais narrativas são feitas: escrita de textos, adição de imagens, vídeo-transmissões, entre outros. Por meio dessas narrativas, as pessoas podem expressar posicionamentos em relação à maternidade.


No caso das mídias sociais, a produção textual se destaca enquanto ferramenta mais usada para debater a maternidade. Por sua vez, a maior parte do público envolvido nessas discussões é feminino. Em vista desse cenário, a pesquisa optou por trabalhar com narrativas pessoais sobre a maternidade escritas por mulheres.



Normatividade materna


Comportamentos estabelecidos social e culturalmente — alguns deles, por lei — que as mulheres precisam apresentar ao se referirem à e se relacionarem com a maternidade, tenham filhos ou não. Determinadas atitudes configuram desvios ao que se espera de sua conduta em relação ao universo materno, sendo alvo de silenciamento, represália, asco, condenação pública, entre outros efeitos, a depender do lugar social — ou dos lugares sociais — que essas mulheres ocupam.


Por exemplo, uma mãe sem paciência com os/as filhos/as pequenos/as vai ser julgada de forma diferente da de uma mulher sem filhos que não tem paciência com os/as filhos/as pequenos/as alheios/as. No entanto, ambas estariam agindo contra a normatividade materna. Segundo ela, mulheres não devem expressar impaciência com crianças. Pelo contrário, devem saber lidar com elas, por meio de zelo e carinho.


Acredito que a normatividade materna está muito ligada à própria ideia de identidade feminina, por sua vez, profundamente relacionada à maternidade e a aspectos entendidos como maternais. Cuidadosa, amável, generosa, sensível. Essas são algumas características que costumam ser associadas à identidade feminina. Associação tradicionalmente feita por evocar ideais maternos como cuidado, afeto, doação e sensibilidade.



Vozes dissonantes


Liesbet van Zoonen argumenta que o ambiente das mídias sociais estimula uma discussão pública calcada em experiências pessoais. Isso favorece a aproximação do sujeito ao que a autora chama de vozes alinhadas: discursos que confirmam aquilo em que ele já acredita. No entanto, graças à combinação dos modelos push e pull na web 2.0, essas mesmas mídias sociais facilitam o contato do sujeito com o que denomino vozes dissonantes: discursos que se opõem a suas afirmações, crenças, posicionamentos e, no caso da pesquisa aqui referida, vivências maternas. ----


Em breve, conheça também o fluxo de associações derivativas, o método criado para a pesquisa.


Acompanhe a transformação da pesquisa na série Da dissertação ao livro, que integra o portal de conteúdo Nota de rodapé.


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