• Ana Luiza de Figueiredo Souza

As muitas faces da culpa materna

Atualizado: 26 de dez. de 2021


Desde o século XVIII, o sentimento de culpa esteve tão atrelado à maternidade quanto os ideais de dedicação e amor — conforme desenvolvo no livro e em alguns artigos.


Trata-se de um mecanismo historicamente utilizado tanto para condicionar as mulheres a se tornarem mães — o que integra a maternidade compulsória quanto para estabelecer modelos maternos e de maternagem hegemônicos que orientam como essas mães devem agir.


Tomar a maternidade como um dos principais marcadores identitários femininos — senão o principal deles — coloca aquelas que não se tornam mães em posição desvalorizada. Seriam "menos mulheres", menos desejáveis enquanto parceiras, motivo de constrangimento ou decepção da família, egoístas por não darem netos aos pais. No mecanismo da culpa, a não maternidade vira ameaça. Cria-se o medo de não ter filhos e terminar solitária, frustrada, cheia de amargura, sem alguém para servir de apoio nos tempos difíceis. Temor existente até hoje, reforçado em diferentes grupos sociais (especialmente os mais conservadores), produções midiáticas e discursos culturais. A não mãe é a vilã da novela, a "árvore seca", aquela só "vive para si mesma" e, com isso, trai o ideal feminino da generosidade (maternal).


Os modelos maternos e de maternagem hegemônicos, por sua vez, são construídos a partir de determinados interesses e, também, de um conjunto de crenças que ajudam a sustentar suas premissas. Historicamente, restringir a atuação das mulheres ao espaço doméstico, fazendo com que nele desempenhassem funções essenciais à esfera pública sem que a integrassem de forma plena, constituiu um dos objetivos que pautaram a criação de modelos maternos e de maternagem hegemônicos. O reconhecimento social feminino viria de sua capacidade de, ao gerir a casa e a rotina doméstica, ter e criar filhos que, mais tarde, teriam suas próprias famílias. Tal discurso perpassa diferentes épocas e países, endossado por variadas mídias, figuras públicas, leis. Discurso este sustentado por premissas como a do instinto materno, que determina que toda e qualquer mulher possui vocação para a maternidade.


A culpa materna, portanto, se associa ao sentimento que as mães têm de não darem conta de todas as suas obrigações e/ou das expectativas em relação ao seu desempenho materno — mais exigente hoje do que em outros momentos históricos. Isso as faz acreditar que não são mães boas o suficiente. Essa culpa repercute nas não mães, que podem sentir que "fracassaram" por não terem tido filhos, não seguirem o que era social e culturalmente esperado delas.


Em anos recentes, sobretudo nas mídias sociais, mulheres (principalmente mães) vêm se mobilizando para que essa culpa seja mitigada, a fim de construir uma relação mais leve com a maternidade. Ainda que represente um processo difícil — não isento de efeitos colaterais que podem ser problemáticos —, buscam desvencilhar a maternagem do hábito de cobrar e culpabilizar a si mesmas de forma constante, na tentativa de normalizar ocasionais falhas e inaptidões.


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Essa e outras temáticas são melhor exploradas no livro Ser mãe é f*d@!”: mulheres, (não) maternidade e mídias sociais.

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