• Ana Luiza de Figueiredo Souza

O que ensinam os sentimentos menos nobres?

Atualizado: 26 de dez. de 2021

Para começar, essa história de nobreza de sentimento é um tanto cabulosa. Nem direi que é um conceito relativo, questão de ponto de vista. Não pretendo entrar nesse mérito. Digamos apenas que, na festa dos sentimentos que vira e mexe damos na cachola, alguns não costumam estar na lista de convidados. Quando aparecem de penetra, então, temos vontade de cancelar tudo. Mas e se essa turma trouxesse um presente escondido por trás do incômodo? Daqueles que você nem sabia o quanto precisava receber?


Segue a lista que os sentimentos menos nobres pediram para entregar. Dá uma olhada e vê se gosta. Eles estão curiosos. E já faz tempo que não recebem convite.


A preguiça, quando chega, avisa que precisamos descansar. Já pegamos pesado, meia horinha de pausa não vai comprometer o desempenho.


A raiva, no rebuliço que causa nas entranhas, nos tira da inércia. É areia pelas frestas, pinica. Movimenta. Queremos distância daquilo que enraivece, mudança no que irrita, solução para o problema capaz de aborrecer.


O nojo escancara o que nos faz mal. Bate pé, pirraça no chão, embrulha estômago. Não gost(am)o(s) disso, deixa bem claro. Se insistirmos, as chances de acabar em meleca são altas.


A tristeza, que já apareceu por aqui, é contemplativa. Boa de reflexões. Relembra o que já passou, dá novos significados àquelas experiências, pensa no que foi sentido ali. Também entende de reparo. Vai no detalhe, nota as sutilezas. E conta tudo baixinho, naquela voz que embaça vista.


O ciúme mostra que nos importamos. Sinal de aquela pessoa, aquele objeto, aquela atividade são valiosos para nós. Mexem conosco. Temos que cuidar deles.


Já falei da invejinha branda antes, e como ela pode indicar algo que queremos. O nariz torcido com a conquista alheia vem do desconforto com aquilo que nós mesmos ainda não conseguimos realizar. É beliscão que acorda e até assusta. Olha lá, bora lá, olha lá, bora lá, insiste, apontando o que outra pessoa fez.


A teimosia prova o quanto a fé que carregamos nas próprias ideias e convicções tem força. Resiste. Não é uma mísera intervenção que vai nos fazer agir de outra forma. O que quer que nos leve a mudar, precisa ser tão forte quanto essa fé persistente.


O medo revela nossos limites, até que ponto estamos dispostos e preparados a ir. Protege. Nenhuma ousadia deve vir sem alguma precaução, diz, naquelas horas em que o juízo nos dá um perdido.


No fundo, nenhum sentimento é intrinsecamente ruim. Muito menos bom. Depende da lida com eles. Alegria demais vira insensibilidade se nos impede de perceber que, naquelas circunstâncias, com aquelas pessoas, o momento é de tristeza. Gestos miúdos. Silêncio. Assim como raiva canalizada para o que é necessário vira combustível para importantes transformações. Pontapé inicial.


Talvez, na próxima festa na cachola, caso esses sentimentos ainda não estejam na lista de convidados, valha a pena deixar a porta entreaberta. Se um deles aparecer, puxa uma cadeira, chega perto. Confere se ele sabe se comportar. Mas lembra: quem ensina as etiquetas da festa é você.


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