• Ana Luiza de Figueiredo Souza

Mãe só tem uma. Será?

Atualizado: 21 de mai.

Vamos ao contexto. Essa frase surge no século XIX, quando o movimento higienista se empenha para reforçar a imagem da “mãe legítima”, ou seja, a mulher formalmente reconhecida como mãe de (mais de um) alguém.


O esforço dos higienistas dá continuidade a um processo que ocorria desde o Brasil Colônia. Nele, representantes masculinos de diferentes segmentos da sociedade colonial e metropolitana estabelecem a família nuclear formada a partir do matrimônio como a “família legítima”. Demais arranjos eram combatidos e segregados.


Conforme aponto em trecho do livro “Ser mãe é f*d@!”: mulheres, (não) maternidade e mídias sociais:


Tal frase [“Mãe só tem uma”] — que parece valorizar a importância materna na vida dos filhos —, serve de alerta e supressão. Alerta à mãe tomada como legítima, para que não se distancie das responsabilidades e expectativas que emergem de seu novo papel social. Supressão de familiares, babás, curandeiras e outras tantas mulheres que dividiam a maternagem com a mãe legítima, mas que não eram formalmente reconhecidas enquanto mães daquelas crianças e jovens.

Cria-se a ideia de que a mãe (“legítima”) é insubstituível, ou seja, ninguém pode desempenhar os deveres maternos tão bem quanto ela nem amar os filhos tanto quanto ela. Logo, é ela quem deve se encarregar de todos os afazeres e afetos relacionados aos filhos. Ao não reconhecer a presença e a importância de outras pessoas na maternagem, todo o seu peso recai sobre uma única mãe. Dinâmica que persiste até hoje.


Por mais que outras mulheres ofereçam diferentes tipos de apoio à maternagem de (mais de um) alguém, apenas uma delas — a “mãe legítima”— recebe o reconhecimento por desempenhar função materna. É para essa mãe que consta nos registros que se dirigem: a) declarações de afeto e respeito; b) o senso de responsabilidade e de gratidão por parte dos filhos; c) leis e políticas públicas.


Assim, temos uma encruzilhada no debate materno contemporâneo. Muitas mulheres (principalmente aquelas que são ou planejam ser mães) querem dividir responsabilidades e tarefas maternas, mas não o título de mãe. Isso se soma ao fato de que várias mulheres fundamentais em redes de apoio materno não se entendem como mães daqueles que maternam. Essas crianças, jovens e adultos, em boa parte das vezes, também não as veem como mães.


Tanto que, dentro das redes de apoio materno, a “mãe legítima” (ou “a mais legítima”) costuma estar no centro das decisões relacionadas à maternagem. Falas que indicam essa tendência são corriqueiras. “No meu filho mando eu”. “A palavra final é da mãe”. “Crio como achar melhor”. “Quem sabe é a mãe”. Ainda que nem sempre a mãe que consta nos registros seja quem mais se ocupa dos filhos.


É interessante pensarmos nas origens de determinadas convenções sociais. Principalmente quando vieram de imposições contrárias às práticas da maioria da nossa população. Historicamente, no Brasil, a função materna é compartilhada entre diferentes mulheres. Resta avaliar quais delas são lembradas ou esquecidas, e por que isso acontece.


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Gostou desse artigo? Acompanhe o Nota de rodapé para publicações semelhantes.


Confira aqui o post sobre a construção e permanência da ideia de que "mãe só tem uma" em formato compacto.


O processo histórico de estabelecimento da “mãe legítima” e suas consequências estão contidos no livro Ser mãe é f*d@!”: mulheres, (não) maternidade e mídias sociais.

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