• Ana Luiza de Figueiredo Souza

Solidão materna

Atualizado: 26 de dez. de 2021


Isolar-se no ambiente doméstico durante o puerpério (ou, no caso de mães adotivas, após a chegada do bebê) é necessário para preservar tanto a saúde da mãe que se recupera da gestação, do parto e/ou de um processo de adoção desgastante quanto a do bebê, ainda muito frágil e suscetível a bactérias e vírus contra os quais não possui resistência suficiente.


É nesse contexto que pode surgir a solidão materna, termo criado por especialistas para traduzir sensações (tristeza, irritabilidade, mudanças emocionais, ansiedade) que acometem mães que, logo após a gravidez, passam a se sentir desconectadas do mundo e de outras áreas da vida além dos cuidados com o bebê. Também é possível aplicá-lo a mães adotivas. Pode ser breve ou se estender por mais tempo, a depender das características (estruturais, psíquicas, familiares) de cada caso.


São cada vez mais comuns relatos de mães que denunciam o fato de se sentirem deslocadas no pós-parto. Alguns fatores ajudam a explicar tal sentimento. O primeiro deles é biológico. Durante a gestação, a placenta produz níveis elevados de estrogênio e progesterona. Com o nascimento do bebê, a placenta é expelida, o que gera queda abrupta do nível desses hormônios no corpo. Isso pode causar oscilações de humor, melancolia, dificuldade de se concentrar, culpa por não estar tão feliz, entre outros sintomas relacionados ao que especialistas denominam baby blues. Trata-se de um distúrbio considerado normal, que costuma durar nos primeiros dias após a mulher ter dado à luz. Estresse, cansaço físico e emocional com os cuidados com o recém-nascido, demandas da amamentação e privação de sono pioram o quadro. Por isso a rede de apoio é tão importante nessa fase inicial da maternagem.


Outro fator se relaciona às mudanças que sucedem o período da gravidez. Número considerável de gestantes relata que são tratadas com maior consideração por parte de familiares, amigos e pessoas em geral. Provocam encantamento, recebem presentes e elogios, respondem perguntas sobre os planos para a chegada do bebê. Todavia, quando ele nasce, a atenção passa a se voltar para o recém-nascido, sendo as necessidades maternas muitas vezes negligenciadas. Tal transição, nada suave, pode ser dura para muitas mães. Também é comum relatarem que precisam reaprender a se perceberem fisicamente separadas do bebê, já que essa ligação, até pelo significado sociocultural que a envolve, é muito intensa durante a gravidez.


Já as mães que receberam pouco ou nenhum apoio durante a gestação também precisam se adaptar não apenas à separação física do bebê e às mudanças que ocorrem em seu corpo, mas também às exigências de maternar sem pessoas ou estruturas próximas para ajudá-la. Fora do ventre materno, o bebê requer leite, troca de fraldas, colo, remédios, vestimentas, estímulos para seu desenvolvimento neurossensorial, consultas médicas, vacinas, entre tantas outras demandas para mantê-lo saudável. Somam-se a isso as demandas da própria mãe, mesmo que sejam reduzidas ao estritamente necessário.


Portanto, a ausência de amparo e de atenção às mães enquanto pessoas, seja desde o início da gestação ou após o nascimento do bebê, representa aspecto relevante no impacto e na duração da solidão materna.


Mais um fator se relaciona ao fato de que, no puerpério, as mães passam mais tempo reclusas com os filhos. Conforme eles crescem, tais atenção e convivência são divididas com a creche, a escola, os cursinhos. Processo em que redes de contato costumam ser formadas entre mães e pais em geral. Tais redes e vivências ajudam tanto a afastar a sensação de desligamento com o restante do mundo quanto a se perceber novamente como indivíduo separado das necessidades dos filhos (ou que existe em paralelo a elas).


Relatos sobre solidão materna também aparecem, por exemplo, entre mães adolescentes cujos círculos sociais mais próximos são compostos por jovens (ainda) sem filhos ou entre mães solo que não dispõem de rede de apoio. Nesses casos, não é exatamente o fato de terem filhos que as torna isoladas, mas sim serem as únicas naqueles núcleos nessa condição e/ou por possuírem vivência materna que destoa daquela que as mães ao redor delas experimentam. Ser mãe na adolescência em certas camadas e grupos sociais, bem como ser mãe sem um/a companheiro/a se afasta do que é preconizado pelos modelos maternos e de maternagem hegemônicos. Por consequência, coloca essas mães à margem dos parâmetros dominantes.


Por fim, existe um fator sociocultural bastante característico do cenário contemporâneo. Há cada vez maior intolerância à ideia de que, para conseguir ou vivenciar algo, é preciso abrir mão de outra coisa, ou pelo menos aceitar que ela será modificada de forma significativa. A vida social de uma mulher com filhos, por exemplo, não vai ser igual à que tinha antes deles. Pode ficar melhor ou pior, mas não será idêntica ao que já foi. Seria impossível. Porém, essa impossibilidade causa angústia. Por mais que o abalo na vida social (bem como a solidão materna) costume acontecer quando os filhos são pequenos, muitas mães sofrem ao perceberem que, pelos próximos anos após o nascimento ou a adoção dos filhos, sua vida social precisará levar as necessidades das crianças em conta, o que não raramente impossibilita alguns planos e saídas. Mesmo que tenha sido planejada, a maternidade, como qualquer outra escolha, implica perdas que não necessariamente a mãe ou sua família estão dispostas a experimentar.


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Essa e outras temáticas são melhor exploradas no livro Ser mãe é f*d@!”: mulheres, (não) maternidade e mídias sociais.


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