• Ana Luiza de Figueiredo Souza

Notas elucidativas: sem-filhos, parentalidade, lógica do estímulo e do desejo, maternidade, gênero

Atualizado: 26 de dez. de 2021

Desde o mestrado, afirmo, com base tanto em observações empíricas quanto em trabalhos qualitativos anteriormente realizados: ter filhos não necessariamente faz alguém perder contatos. Pelo contrário. Até porque é mais simples encontrar outras pessoas com filhos do que sem eles. O movimento de criação de comunidades de pessoas sem filhos ao redor do mundo é resposta empírica a essa questão.


Em entrevista, o professor canadense Jerry Steinberg, criador da comunidade online No Kidding, hoje com mais de 8 mil participantes de diferentes países, revelou que "sentiu-se isolado em sua decisão [de não ter filhos] e percebeu que estava perdendo os amigos. Eles começavam a ter filhos, mudavam o rumo na vida e faziam novas amizades em função das crianças. Foi então, há 19 anos, que surgiu a ideia de fundar um clube de pessoas sem filhos".


São, portanto, as pessoas sem filhos que costumam se sentir deslocadas em vários círculos sociais. Vem daí a iniciativa de criarem grupos voltados para quem compartilha a não parentalidade com elas. Interessante perceber que, enquanto a parentalidade se torna cada vez mais permeada pela cultura digital gerando fenômenos como, por exemplo, o sharenting —, a não parentalidade passa por processo parecido, com o surgimento de comunidades em plataformas digitais voltadas para a discussão (e validação) da vida sem filhos.


Mas e a solidão materna? São cada vez mais comuns relatos de mães que denunciam o fato de se sentirem isoladas ou deslocadas por terem filhos. Mas é importante perceber que, na maioria das vezes, esses relatos partem de mães de bebês ou crianças pequenas. O termo solidão materna, inclusive, foi criado com base nos sentimentos que acometem mães após darem à luz. É possível estender tal conceito à primeira infância dos filhos, ainda que não seja sua concepção original. Nessa fase, as mães passam mais tempo reclusas com os pequenos. Conforme crescem, tais atenção e convivência são divididas com a creche, a escola, os cursinhos. Processo em que redes de contato costumam ser formadas entre mães e pais em geral.


O que percebo, tanto em pesquisa quanto no cotidiano (inclusive por meio do contato com o público que acompanha meus trabalhos), é que a sensação de deslocamento das mães vem de conflitos de cunho identitário — "Quem eu sou para além de mãe?"; "Como recuperar a personalidade que tinha antes dos filhos?". Em seus próprios termos, vivem um "luto" pela mulher que "morreu" para que "nascesse" a mãe.


Também existem conflitos de teor mais pragmático. O sofrimento causado pelo atrito entre o que essas mães querem fazer e o que precisam fazer. Entre o que gostariam de realizar e o que de fato conseguem colocar em prática. Dilemas estes que perpassam a existência de todas as pessoas inseridas em culturas nas quais se apresentam muitas opções de escolha, impossíveis de serem vivenciadas pelo mesmo indivíduo, mas que a todo momento são anunciadas a ele como possíveis, imprescindíveis, "você está perdendo se não experimentar".


Somos estimulados a vivenciarmos a maior quantidade de experiências, sem abrir mão de nenhuma. Nesse contexto em que o estímulo constitui o mecanismo do funcionamento social, são criados desejos que buscamos contemplar. Isso provoca dois efeitos que venho trabalhando em pesquisa: a) a frustração por não conseguir satisfazer um desejo se torna maior do que em momentos históricos anteriores; e b) a consciência ou a descoberta de que nem tudo é passível de escolha e/ou que algumas das escolhas desejadas não estão ao seu alcance se transforma em nova fonte de sofrimento e insatisfação.


No caso das mães, esse conflito entre a expectativa e a realidade se intensifica diante da comparação com modelos maternos e de maternagem exigentes, que demandam compreensão e paciência infinitas, amor profundo, cuidado intensivo, entre outras cobranças, inclusive, autoimpostas.


No caso das mulheres sem filhos, esses conflitos se manifestam em relação a modelos femininos hegemônicos, profundamente ligados aos modelos maternos e de maternagem dominantes. Neles, a "mulher de verdade" tem perfil maternal, deseja e sabe maternar, tem maior valor ao virar mãe de alguém. Portanto, também são afetadas pelos parâmetros hegemônicos da maternidade.


O fator gênero é relevante nessas dinâmicas. O que aumenta a intensidade dos conflitos identitários ou pragmáticos é a correspondência entre ser mulher e a necessidade de demonstrar certos comportamentos em relação aos universos parental e infantojuvenil para ser validada enquanto sujeito feminino. Tais universos não são fundamentais para legitimar a existência de homens, nem implicam o mesmo nível de aplicação da parte deles. Além disso, há estruturas (inclusive nos âmbitos políticos e médicos) que constantemente colocam a maternidade não apenas enquanto caminho preferível, mas benéfico, fundamental, único a ser percorrido pelas mulheres.


Acredito que tudo aquilo que foge à norma experimenta algum grau de rejeição, sujeita à ideia de culpa por se desvencilhar dos padrões. Uma das maneiras de rejeitar alguém (ou o que essa pessoa e seu estilo de vida representam) é excluir esse alguém. Exclusão que pode ser, inclusive, simbólica. Aquele indivíduo ou aquele modo de vida não aparecem entre as opções que se apresentam como adequadas, positivas, mais dignas.


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Esse artigo foi dividido em alguns posts. Confira aqui o post sobre exclusão social de pessoas sem filhos; aqui o post sobre solidão materna; e aqui o post sobre as diferentes influências socioculturais sobre mães e não mães, todos em formato compacto.


Essas e outras temáticas são melhor exploradas no livro Ser mãe é f*d@!”: mulheres, (não) maternidade e mídias sociais, além de integrarem minha atual pesquisa de doutorado.


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